A Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV e AIDS no Estado de São Paulo (RNP+SP) publica nota de repúdio

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A Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV e AIDS no Estado de São Paulo (RNP+SP) vem manifestar repúdio ao conteúdo textual e semiótico de uma postagem feita no perfil oficial da Agência de Notícias da Aids no Instagram, nesta sexta-feira, 17 de dezembro de 2021, na qual faz a divulgação de alguns resultados de pesquisa científica sobre uso de preservativos por homens que fazem sexo com homens (HSH).

Ocorre que o modo como a postagem foi escrita e, sobretudo, o conteúdo da imagem (“Sem capa: 75% dos gays não usam camisinha no sexo”) apresentam uma conotação fortemente estigmatizante para pessoas LGBTQIAP+ e pessoas que vivem com HIV e AIDS, pois reproduz ou dá ampla margem para reprodução de discursos moralizantes cuja origem data dos anos iniciais da década de 1980 – época do surgimento da pandemia de AIDS. Sabe-se que a ênfase dada nos chamados “grupos de risco” ou “5H” (homossexuais, heroinômanos, hemofílicos, haitianos e profissionais do sexo – hookers, em inglês) por órgãos estatais como os Centers for Disease Control and Prevention (CDC), dos Estados Unidos, e por outras organizações e sociedades científicas, contribuiu fortemente para a estigmatização, discriminação, segregação e morte das pessoas afetadas pela AIDS nos primeiros anos da pandemia. Além disso, há hoje uma ampla literatura produzida por movimentos sociais e pesquisadoras/es do Brasil e do mundo que apontam as consequências mortíferas do ponto de vista sanitário, social, político e cultural do pânico moral e da estigmatização dos ditos “5H”, com destaque para a feminilização e a heterossexualização da aids, sem esquecer do sofrimento e da exclusão social das pessoas que se viram alvo dessa cruzada moral.

A veiculação de conteúdo dessa natureza não colabora para o acesso e democratização do conhecimento científico. Pelo contrário, se caracteriza como um ingrediente a mais para as hordas conservadoras e reacionárias, que sistematicamente têm deturpado o verdadeiro sentido da divulgação científica e da comunicação social, na medida em que têm se comprometido com a disseminação de informações falsas e que se valem de qualquer dubiedade para protocolar projetos de lei no Congresso Nacional que criminalizam não apenas a transmissão do HIV, mas, principalmente, as pessoas que vivem com o vírus da aids e aquelas que têm medo de um possível diagnóstico positivo.

Importante sublinhar, ainda, que “11 Unidades da Federação (UF) apresentaram taxa de detecção de HIV em gestantes superior ou igual à taxa nacional [de 2,7 casos/mil nascidos vivos]: Rio Grande do Sul (8,1), Santa Catarina (5,5), Roraima (4,9), Rio de Janeiro (4,3), Amapá (3,9), Amazonas (3,8), Alagoas (3,4), Pernambuco e Pará (3,3), Mato Grosso do Sul (2,8) e Tocantins (2,7)” (Fonte: Boletim Epidemiológico HIV/AIDS. Ministério da Saúde. Brasil, 2021).

Desde 2000, a faixa etária entre 20 e 24 anos é a que apresenta o maior número de casos de gestantes infectadas pelo HIV (27,5%), notificadas no Sinan entre 2000 e junho de 2021” (Fonte: idem). Ainda, de 2007 a junho de 2021, dos casos de infecção pelo HIV entre homens, “verificou-se que 52,1% dos casos foram decorrentes de exposição homossexual ou bissexual e 31,0% heterossexual, e 1,9% se deram entre usuários de drogas injetáveis (UDI). Entre as mulheres, nota-se que 86,8% dos casos se inserem na categoria de exposição heterossexual e 1,3% na de UDI” (Fonte: idem).

Lemos os comentários à postagem. A imensa maioria preconceituosa, odiosa, estigmatizante. Ao transformar a categoria de exposição HSH em gays, a Agência Aids colabora com o preconceito, a discriminação e o estigma reafirmando a associação gay = aids. Além disso, aumenta a invisibilidade heterossexual masculina da aids e expande a dificuldade de acesso de mulheres cisgênero ao diagnóstico oportuno e a um tratamento eficaz oferecido pelo SUS a todas as pessoas vivendo com HIV e aids no Brasil, sejam elas homens heterossexuais, gays, bi ou transexuais, mulheres cis ou trans, travestis, idosos, adultos, jovens, adolescentes, crianças e recém-nascidos.

Lamentável e repudiante!

Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV e AIDS no Estado de São Paulo
São Paulo, 18 de dezembro de 2021.

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1 comentário on "A Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV e AIDS no Estado de São Paulo (RNP+SP) publica nota de repúdio"

  1. Cláudio José M vilarins

    Essa fala não inclui,apenas enfatiza a exclusão. Era assim que a Alemanha,na década 40 , 40 falava para o povo com relação aos deficientes. Era um peso.

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