Emoção marca abertura da 21ª Conferência Internacional de AIDS

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DURBAN – “O HIV não é transmitido pelo sexo, mas pelo estigma, pelo sexismo, pela pobreza e pela homofobia.” Com esta frase a atriz Charlize Theron arrancou gritos, suspiros e aplausos, muito aplausos durante a abertura da 21ª Conferência Internacional de AIDS, que começou oficialmente hoje, em Durban, África do Sul. Otimista, ela espera que em 2030 seja realizada a última conferência sobre aids no mundo (quando o UNAIDS espera ter eliminado a epidemia de aids da face da Terra).

Antes, o neto de Nelson Mandela lembrou do avô, que hoje faria mais de 90 anos, falou dos avanços _ especificamente desde a última conferência aqui realizada, 16 anos atrás _, mas também da importância da união de esforços para “dar um fim à epidemia”.

Logo após, os presidentes da Conferência fez referência aos homens gays falarem para os homens gays e de homens gays para mulheres, sem restrição às trocas de experiências entre populações, “pois essa é chave para se ter um enfrentamento mais amplo da epidemia”. Essas palavras emocionaram a audiência, quando puderam ser vistos brilhos de lágrimas descendo por diversos rostos em volta).

Novos modelos
Pela manhã foi possível presenciar um modelo de roda de conversa bastante interessante, onde jovens com que vivem com HIV respondiam aos questionamentos de pesquisadores. A professora Vera Paiva, da Universidade de São Paulo e Núcleo de Estudos e Prevenção da AIDS (Nepaids), questionou os jovens sobre sexualidade _ campo de pesquisa em que ela atua. Depois de 35 anos do HIV se disseminando pelo mundo, ceifando vidas, a revelação da soropositividade para amigos, parceiros e parceiras sexuais, na escola ou no trabalho ainda é uma questão. Não é à toa que, no Brasil, mesmo sabendo que há mais de 800 mil pessoas com HIV, qualquer pessoa recebe o diagnóstico como se ela mesma fosse a única com HIV. Isso é um problema sério, muito sério.

Para a coordenadora estadual de São Paulo, Maria Clara Gianna _ que não participa de uma conferência desde 2004 _, é preciso um investimento pesado no acesso à profilaxia pré-exposição (PrEP), na incorporação de medicamentos menos tóxicos para o tratamento na primeira linha (como os inibidores de integrasse), o reforço do conceito de vulnerabilidade, além de retomada do trabalho de prevenção nas escolas e o reforço do protagonismo juvenil, são imprescindíveis. Há algumas semanas, ativistas paulistas cobraram da coordenadora a retomada da vanguarda paulista na gestação políticas, especificamente sobre a adoção da distribuição de medicamentos menos tóxicos _ pelo Estado de São Paulo, se necessário.

Tratamento para todos
No final da manhã, parte dos ativistas presentes à conferência foram levados a um ponto, no centro da cidade, de onde marcharam pelas ruas de Durban pelo acesso universal ao tratamento (treatment for all) para todos era o tema da marcha. Protestos contra os laboratórios farmacêuticos tradicionais financiadores das conferências de aids sobressaíram sobre outros temas. Juntas, as pequenas delegações latino-americanas gritaram juntas palavras de ordem sobre equidade, tratamento, direitos humanos e a afirmação de que saúde não é mercadoria.

À tarde, antes da abertura, a Aids Healthcare Foundation promoveu um painel sobre a resposta à epidemia nos países do Brics (bloco formado pelos “emergentes” Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul). As maiores perguntas foram dirigidas ao Brasil. Em sua intervenção, a RNP+ questionou o Ministério da Saúde brasileiro o porquê, com tantos avanços, tivemos aumento no número de mortes no País. A representante do Ministério disse que, entre outras razões _ o estigma entre elas_ o acesso tardio ao diagnóstico era o principal motivo. Outras perguntas dirigidas ao Brasil de ativistas de diversas partes do mundo foram referentes à adoção da PrEP, ao hiato entre o acesso aos serviços de saúde, a retenção das pessoas com HIV e a supressão da carga viral.

Que diplomacia?
No domingo, ativistas brasileiros se revoltaram com o ex-coordenador do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde. Em sua apresentação, ele disse que “o atual ministro da Saúde, um engenheiro de um dos partidos mais corruptos do Brasil, quer acabar com o acesso universal”. Não é uma inverdade. No entanto, para quê trazer para fora do Brasil essa questão? Notícias do Brasil dão conta que até o ministro da Saúde teve de responder à provocação. Muito feio.

Por Paulo Giacomini e Moysés Toniolo

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