Erros com HIV nos anos 1980 se repetem agora com varíola dos macacos, alerta infectologista

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OMS diz trabalhar com a hipótese de que o surto na Europa teria sido causado por hábitos sexuais de risco em raves.  No caso da varíola dos macacos, a principal via de transmissão é o contato próximo, o que nem sempre significa, necessariamente, ter relação sexual

 

Por Anaïs Fernandes, do Valor — São Paulo

24/05/2022 14h07

Autoridades e a sociedade civil já erraram na abordagem inicial do surto de HIV (Vírus da Imunodeficiência Humana), causador da aids, nos 1980 ao estigmatizar gays, bissexuais e homens que fazem sexo com homens (HSH) e ameaçam seguir pelo mesmo caminho agora com o surto de varíola dos macacos, alerta Rico Vasconcelos, médico infectologista e pesquisador do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) diz trabalhar com a hipótese de que o surto na Europa teria sido causado por hábitos sexuais de risco em raves na Espanha e na Bélgica e que essa seria a principal teoria para explicar a predominância de casos entre homens que se dizem gays e bissexuais.  No domingo, o Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS (Unaids), no entanto, expressou publicamente preocupação com abordagens na mídia e comentários que estariam reforçando estereótipos homofóbicos e racistas. “A impressão de que parece que tem algo se repetindo, de que já vimos isso com HIV, é totalmente real e genuína”, diz Vasconcelos.

“O departamento epidemiológico do Reino Unido, por exemplo, soltou um ‘atenção homens gays e bis’. Calma, o recado é: atenção população, porque a transmissão não acontece no sexo gay, acontece com o contato próximo”, explica o médico.

Em Madri, na Espanha, o governo regional chegou a fechar uma sauna após o relato de homens que acreditam ter se contaminado no local. “Na história do HIV isso foi feito em São Francisco [Estados Unidos]. Aí, a opinião pública entende que sauna é uma ‘imundice’, ‘pouca vergonha’. Você acha que quando fecham a sauna, os homens param de transar? Eles só estão transando em outro lugar. [O caminho] Não é fechar sauna, colocar a culpa em homens gays. É comunicar de forma clara o que está acontecendo”, afirma Vasconcelos.

Hoje, já se sabe que outro tipo de abordagem, quando foi feita para HIV, não deu muito certo, aponta o pesquisador, que estudou no doutorado prevenção e tratamento de HIV e outras Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs). “A epidemia de HIV já nos mostrou que, quando você faz uma comunicação focal desse jeito, direcionada para os chamados ‘grupos de risco’ — um termo que a gente evita —, você acaba tendo desdobramentos muito ruins e cruéis”, afirma.

Entre eles, Vasconcelos cita a estigmatização de comunidades. “A população começa a achar que todo homem gay tem varíola, HIV, sífilis”, diz. “Além disso, você tira o resto da população da necessidade de cautela, de preocupação. As pessoas pensam: ‘Se eu não sou homem gay, não preciso me preocupar’. Esse erro foi cometido com HIV e está sendo cometido novamente agora”, alerta o médico.

Uma coisa, diz ele, é identificar características epidemiológicas do fenômeno. “Isto é: estamos vendo muitos casos de uma doença que até então não tinha muitos casos nos lugares onde estão aparecendo e há um concentração em homens que dizem fazer sexo com outros homens, que é o melhor termo epidemiológico”, explica Vasconcelos. “Nem todos os homens que transam com outros homens se identificam como gays. Muitos homens que se dizem heterossexuais têm essas relações”, observa.

A questão é o que fazer a partir dessa constatação — e é aí que tem muita gente “escorregando”, segundo Vasconcelos. “O que tem de diferente entre homens gays, bissexuais, HSH para homens heterossexuais ‘sui generis’? A característica de com quem se relacionam. Isso pode fazer as pessoas pensarem que existe algo ligado aos contatos sexuais que essas pessoas têm no que diz respeito à transmissão da doença”, aponta. A varíola dos macacos, no entanto, não é uma Infecção Sexualmente Transmissível. Vasconcelos explica que, para ser considerada uma IST, o contato sexual precisa ser a principal via de transmissão. “A sífilis, por exemplo, pode ser transmitida da mãe grávida para o bebê, mas a gente considera uma IST porque a principal via de transmissão é entre adultos tendo relação sexual”, exemplifica. No caso da varíola dos macacos, a principal via de transmissão é o contato próximo, o que nem sempre significa, necessariamente, ter relação sexual – pode ser um beijo, por exemplo, ou um contato próximo prolongado de outra natureza.

Exemplo nacional: No Brasil, onde nenhum caso da doença foi confirmado até o momento, Vasconcelos diz ver, por ora, bons exemplos de comunicação. Em 19 de maio, a Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde emitiu uma “comunicação de risco” sobre a doença com recomendações aos profissionais e serviços de saúde. “Os casos relatados na UKHSA [Agência de Segurança da Saúde do Reino Unido] até o dia 16 de maio tratam-se predominantemente de homens que mantinham relações sexuais com outros homens. Segundo o CDC [Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA], não se deve limitar as preocupações aos homens que mantêm relação sexual com outros homens. Aqueles que têm algum tipo de contato pessoal próximo com pessoas com varíola dos macacos também podem estar em risco de contrair a doença”, reforça o comunicado. “Temos aprendizado [do HIV], tem muita gente do Ministério da Saúde que sabe isso melhor do que ninguém, dos erros cometidos no passado. Mas não são apenas essas pessoas que tomam decisões, pode ser que saia alguma coisa controversa, atravessada”, ressalva Vasconcelos.

Para ele, dado o fluxo migratório entre países que já têm casos confirmados e o Brasil, é “completamente possível e provável” que ocorram registros por aqui. “Não penso que teremos uma nova pandemia como a de covid-19, porque a transmissão entre pessoas da varíola de macacos é pouco eficaz, precisa ter contato próximo. Não é como a covid, que é muito mais transmissível”, observa. Ele pondera, no entanto, que o país precisa se preparar para a chegada da doença. Isso inclui, por exemplo, suporte laboratorial. “Hoje, se eu chegar em um laboratório privado de São Paulo e quiser fazer PCR para varíola do macaco, não tem”, afirma, acrescentando que os laboratórios já começam a se mexer nesse sentido. Além disso, a vacina para varíola, que parece oferecer uma proteção razoável para a varíola do macaco, não é mais oferecida nos postos de saúde, já que a doença foi considerada erradicada no fim dos anos 1970. “Seria uma saída para a gente utilizar, caso as coisas piorem bastante”, sugere o médico.

Vasconcelos lembra que, entre 2016 e 2018, houve um surto de hepatite A, que pode ser transmitida por contato sexual, entre homens gays/bissexuais/HSH em São Paulo. “O Estado fez uma boa abordagem, sem estigmatizar e recomendando a vacinação gratuita pelo SUS. Essa vacina não é liberada no sistema para todos os homens adultos, só para crianças ou pessoas com doenças hepáticas. Eles recomendaram a vacinação, que foi realizada e o surto acabou”, conta o médico.

Outro ponto é o período de incubação (tempo entre a pessoa pegar o vírus e começar a ter sintomas), que, no caso da varíola dos macacos, pode ser superior a dez dias, contra três a quatro da covid-19, aponta Vasconcelos. “Isso significa que quando a pessoa começa a ter sintomas, já está com o vírus há um tempão, foi para lá e para cá. Será que nesses dez dias não passou para alguém? Não parece ser o comum, a maior parte da transmissão começa depois dos sintomas”, pondera o médico.

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