‘Flexibilização de máscaras não tem base em evidências’

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Lorena Barberia, pesquisadora do Observatório Covid-19 BR, fala sobre a decisão do governador João Doria de desobrigar o uso da proteção em espaços fechados 

Do Nexo Jornal 

Mariana Vick

A decisão do governador paulista João Doria (PSDB) de desobrigar o uso de máscaras contra a covid-19 em espaços fechados é precoce e passa a mensagem errada sobre o estado da pandemia, segundo Lorena Barberia, professora no Departamento de Ciência Política da USP (Universidade de São Paulo), coordenadora científica da Rede de Pesquisa Solidária e pesquisadora do Observatório Covid-19 BR.

A medida foi anunciada na quinta-feira (17) pelo tucano, que é pré-candidato à Presidência. Ela foi baseada em uma nota técnica do comitê científico que assessora o governo na pandemia de covid-19. A proteção permanece obrigatória em unidades de saúde e no transporte público, além de locais de acesso a ônibus, trens e metrôs.

Para Barberia, os números de mortes por covid-19 no estado — 811 na semana anterior à liberação, segundo o Conass (Conselho Nacional de Secretários de Saúde) — e o cenário internacional, com o aumento de casos na Ásia e na Europa, mostram que a pandemia não está controlada e a população pode ficar vulnerável com a flexibilização.

Nesta entrevista ao Nexo, Barberia compara a decisão mais recente com flexibilizações anteriores de isolamento social — que ela critica por seguirem um movimento de zigue-zague, num abre-e-fecha de atividades. Ela também comenta o momento atual da pandemia e explica qual a importância do uso de máscaras.

Como a sra. avalia a decisão do governador João Doria de desobrigar o uso de máscaras em locais fechados?

LORENA BARBERIA É uma decisão que não se justifica com base nas evidências. Os dados disponíveis sobre a pandemia mostram que as máscaras são eficazes [contra o contágio pelo coronavírus]. Além disso, quando olhamos o estado atual da pandemia em São Paulo e no contexto internacional, vemos que estamos mais uma vez prestes a entrar em um período complicado.

Tenho insistido muito que um problema que temos no Brasil — e especificamente também em São Paulo — é que as medidas [contra a covid-19] vão num zigue-zague. O governo flexibiliza, depois aumenta as restrições, depois flexibiliza de novo. Muitas vezes, as flexibilizações não são coerentes com as tendências de infecções e óbitos da pandemia do momento. São flexibilizações precoces. Com isso, não controlamos a pandemia e passamos a mensagem errada.

A sra. citou o contexto internacional. Como avalia o quadro da pandemia no exterior hoje? Os problemas podem se repetir no Brasil?

LORENA BARBERIA Estamos vendo um aumento significativo de casos de covid-19 na Ásia, tanto na Coreia do Sul como na China. Na Europa, temos a guerra na Ucrânia, que tem gerado um movimento grande de refugiados. Essas pessoas estão em situação de vulnerabilidade, se deslocando aglomeradas, sem máscaras, sem testagem e com baixa cobertura vacinal. Não é algo que conseguimos entender imediatamente — daqui a algumas semanas poderemos ver qual o impacto disso. Mas deixa uma preocupação grande.

Tanto nos Estados Unidos como na Europa, estamos vendo também o aumento de crianças hospitalizadas. É um contexto complicado.

O problema de tudo isso para nós é que o estado de São Paulo recebe um fluxo enorme de passageiros internacionais. Quando há novas variantes [do coronavírus] e aumento de casos em outros países, o estado fica particularmente vulnerável, porque está muito exposto.

Nesse contexto desfavorável, estamos tirando uma das poucas medidas que estão funcionando. Não temos testagem o suficiente, e as medidas de distanciamento físico já foram flexibilizadas. Estamos dependendo em São Paulo da vacinação. Mas precisamos entender que a vacina funciona dentro de um pacote coerente de medidas. Precisamos de vigilância, testagem, monitoramento de voos, máscaras e vacina. Considerando nosso quadro atual de óbitos [por covid-19], a doença ainda não está sob controle. Sinalizar para a população que estamos flexibilizando medidas porque a situação está boa é a mensagem errada.

A mensagem tem que ser de cuidado, alerta, precaução. Acabamos de liberar máscaras em ambientes abertos. Mal tivemos tempo para observar o que aconteceu depois da flexibilização e logo em seguida estamos também liberando [tirar a máscara] em ambientes fechados. Lugares que vemos eliminarem máscaras sempre registram aumento de casos. Mas em outros países se testa, o que não é o caso do Brasil.

O que a população deve fazer, na sua opinião?

LORENA BARBERIA Existe uma questão interessante. No primeiro momento da pandemia, antes de a OMS (Organização Mundial da Saúde) declarar [o estado de pandemia], mas quando já tínhamos casos suspeitos de covid-19 em São Paulo, a população começou a ficar mais em casa. Tomou precauções. As medidas do governo vieram depois dessa reação. Por isso, acho que é importante confiar nas pessoas. As pessoas têm a experiência de dois anos de pandemia e acesso à informação.

Acredito que seria correto neste momento que continuássemos usando máscaras, evitando colocar outras pessoas em risco. Temos que agir com um sentimento de solidariedade e respeito pela vida humana. Usar máscaras é a atitude correta e responsável até que tenhamos o controle efetivo da pandemia.

Tenho insistido também que o uso de máscaras é uma medida com ótimo custo-benefício. As máscaras são baratas. Testar uma pessoa com sintomas, tratar alguém com covid-19 que precisa ir ao médico — tudo isso tem custos mais elevados. Além de tudo que disse, desobrigar o uso de máscaras não faz sentido porque elas não têm um custo alto para as pessoas. É um custo muito baixo para um ganho muito grande. É uma medida inteligente. Por isso acho tão contraditória essa decisão.

Quando houve as festas e as viagens de carnaval, houve uma grande preocupação sobre o possível efeito do feriado para os casos de covid-19. Algumas semanas depois, o cenário da pandemia não piorou. Por que pioraria agora?

LORENA BARBERIA O problema é que não temos transparência o suficiente para confiar nos dados da pandemia. Não há esforços de testagem, e mesmo para os testes que existem há pouca transparência sobre os dados. Além disso, existe uma defasagem grande entre o momento em que as infecções ocorrem e o momento em que são notificadas. Quando falamos que os casos não aumentaram, na verdade, não temos certeza disso, porque não testamos.

É uma coisa circular: como já não temos testes, as pessoas com sintomas deixam de procurar se testar — principalmente agora com as vacinas, que tem nos deixado com sintomas mais leves. Por isso, não estou surpresa por não ver um surto de novos casos de covid-19 depois do carnaval. Mas pensamos que tudo está melhorando porque não temos nenhum esforço de controle ou monitoramento da pandemia. Com a desobrigação das máscaras agora, acho que, sem testes, só vamos descobrir o problema quando as internações voltarem a aumentar.

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