Julho Amarelo: Um grito contra as hepatites virais

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As hepatites virais que são referenciadas com uma sopinha de letras, pois têm os tipos A, B, C, D e E, recebem no mês de julho de cada ano no Brasil uma atenção maior dos serviços de saúde, em especial pelos que têm a especialidade em doenças de condições crônicas e infecções sexualmente transmissíveis. A ampliação das atividades de conscientização nesse mês deu-se após a movimentação intensa das associações de pacientes que culminou com a sanção da Lei Nº 13.802 de 10/01/2019, que instituiu o “Julho Amarelo”, a ser realizado a cada ano em todo o território nacional, quando são efetivadas ações relacionadas à luta contra as Hepatites Virais. Já o dia 28 de julho de cada ano é preconizado pela OMS, desde o ano de 2010, como o dia mundial de luta contra as Hepatites Virais.

Para o bem da saúde da população, essa atenção deveria ser dada durante todo o ano, pois principalmente as hepatites dos tipos B e C são doenças silenciosas, com transmissão por atitudes do cotidiano, como entre outros compartilhamentos de instrumentos perfurocortantes sem a devida esterilização, e que não distingue classe social, que raramente apresentam sintomas, mas quando isso acontece, graves formas evolutivas já estão estabelecidas, como a cirrose e o câncer hepático. A hepatite C é a maior causa de indicação de transplante de fígado. De 1999 a 2019 foram notificados quase 248 mil casos de Hepatite B, levando a óbito 16.750 infectados, e para Hepatite C, mais de 253 mil casos foram notificados, e desses, 59.925 foram a óbito.

No final de junho passado o Ministério da Saúde realizou o Seminário de 20 anos de política nacional de Hepatites Virais, e não dá para deixar de ficar triste ao recordar as enormes dificuldades de um passado recente na assistência às pessoas com as hepatites B e C, dificuldades essas que se apresentavam desde o diagnóstico até o tratamento, por serem assintomáticas, requererem investigação diagnóstica por exames complexos de biologia molecular e imagens, e que teve por mais de uma década como único tratamento, medicamentos antivirais com baixa eficácia, e que por utilizar o próprio organismo para combater o vírus, causavam muitos e importantes efeito colaterais, ao ponto de muitos pacientes abandonarem o tratamento.

Milhares de pacientes perderam a qualidade de vida e muitos a própria vida, tornando-se a hepatite do tipo C um grave problema de saúde pública mundial, que até hoje a ciência não conseguiu descobrir uma vacina, ao contrário da hepatite B que têm e é de fácil acesso pelo SUS para toda a população.

Eu mesmo descobri estar infectado com o vírus da hepatite C (HCV) em 1999 após uma doação de sangue. Fiz três dos únicos e complicados tratamentos que tínhamos disponíveis no mundo até o ano de 2012 sem obter êxito na eliminação do vírus, ao ponto das graves formas evolutivas me levarem ao transplante de fígado, após a família do doador falecido dizer um “sim” à retirada do órgão, realizado no Hospital Albert Einstein pelo SUS, coincidentemente no “Julho Amarelo”, precisamente no dia 03 desse mês no ano de 2014. Milhares de pessoas como eu, passaram por essas terapias com baixíssima eficácia, e desses muitos não estão mais nesse prisma espiritual, tornando-se assim a Hepatite C uma grande vilã, exibindo sua maldade também com alta prevalência na coinfecção com as pessoas vivendo com HIV.

Em 2012 iniciou-se uma nova era no enfrentamento das hepatites Virais B e C. A do tipo B com vacina que não precisava mais ser importada, pois estava sendo fabricada no Brasil pelo Instituto Butantã, e a ciência apresentando medicamentos de ação direta no vírus C, um grande salto na terapia pois aumentava o índice da negativação da ação do vírus, mas que ficou no arsenal do MS por pouco mais de dois anos, pois mostrou-se inadequada devido ter intensificado ainda mais as reações adversas, prejudicando e muito a adesão dos pacientes por terem que ser ministrados em associação com os antivirais antigos Interferon e Ribavirina, e restrição de uso para muitos casos.

Finalmente estabelecido o grande avanço no enfrentamento da Hepatite C!!!

Em 2015, veio o momento “divisor de águas” no país, quando após a descoberta pela ciência de medicamentos de ação direta contra o vírus da hepatite C, foi incorporado no SUS e o novo protocolo clínico e de diretrizes terapêuticas, embora restringindo inicialmente o tratamento para pessoas que ainda não tinham lesões importantes no fígado, trouxe a cura para mais de 100 mil pessoas no Brasil, e atualmente o acesso é para todas as pessoas que têm o diagnóstico, independente do grau de lesão hepática, aplicando assim a estratégia “Testar, Tratar, Curar”.

Não poderia me furtar a afirmar que além do jubilo da descoberta da ciência, esse status favorável atual teve sua mola propulsora nas estratégias da equipe do então Departamento de IST, Aids e Hepatites, capitaneada pelo Dr. Fábio Mesquita, e mantida até hoje, inclusive com novos e importantes avanços nas diretrizes de enfrentamento pelo Dr Gerson Pereira e equipe do atualmente denominado Departamento de Doenças Crônicas e Infecções Sexualmente Transmissíveis – DCCI.

Vacina para Hepatite B universal disponível na rede de atenção primária, acesso facilitado dos medicamentos incorporados no SUS nas farmácias municipais pelo Siclon, e que propiciam cura de quase 100% à todos diagnosticados com HCV, testes rápidos para utilização nos serviços de saúde e locais de difícil acesso chamados ”extra muros”, e assim pessoas imunizadas (VHB), diagnosticadas, tratadas e curadas (VHC), promovendo a qualidade de vida e a própria vida das pessoas frente às hepatites B e C, foram medidas tomadas que colocam o Brasil em posição de destaque no objetivo preconizado pela Organização mundial da Saúde pró eliminação da hepatite C até o ano de 2030.

No entanto outros desafios emergem e fazem com que as gestões de saúde envolvidas com o agravo produzam e apliquem estratégias com a maior brevidade, como intensificar a oferta de testagem durante todo o ano, independente assim do período “Julho Amarelo”, realizar testagem em segmentos de maior vulnerabilidade, o que é chamado de microeliminação, como entre outros, população privada de liberdade e pacientes renais crônicos em hemodiálise. O envolvimento de outras Secretarias do MS, também se tornam importantes para lidar com os efeitos das hepatites virais como doença base para agravos importantes como a cirrose hepática e o hepatocarcinoma, e assim criarem Protocolos Clínicos e Diretrizes Terapêuticas -PCDT para os mesmos.

Os avanços importantes promovidos pela ciência e pelas gestões vieram nesses últimos anos estabelecer uma assistência favorável às hepatites virais que então nos parecia utopia até o ano de 2014, mas o foco deve continuar para esse enfrentamento haja vista que há uma expectativa de cerca de 500 mil pessoas no país que estão infectadas e não sabem dessa sua condição, bem como outras milhares que mesmo com a negativação da ação do vírus após tratamento, têm que ser monitoradas através de uma linha de cuidados, devido as graves formas evolutivas já instaladas em seus organismos por ação dos vírus VHB e VHC.

 

* Jeová Pessin Fragoso é presidente do Grupo Esperança e fundador do Movimento Brasileiro de Luta contra as Hepatites Virais, conselheiro Municipal de Saúde de Santos e Conselheiro Nacional de Saúde.

 

Fonte: Agência Aids 

 

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