NÃO TEMOS CULPA, NÃO SOMOS VETORES A SEREM EXTERMINADOS

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Carta aberta das redes de pessoas vivendo com HIV e AIDS à sociedade brasileira

A Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV e AIDS (RNP+), o Movimento Nacional das Cidadãs PositHIVas (MNCP) e a Rede Nacional de Adolescentes e Jovens Vivendo com HIV/AIDS (RNAJVHA) vêm à sociedade brasileira manifestar descontentamento com a campanha de prevenção do HIV para o carnaval, lançada pelo Ministério da Saúde nesta terça-feira (21), em Salvador. O vídeo “No Carnaval use camisinha e viva essa grande festa” estigmatiza a nós, cidadãs e cidadãos de todas as idades, gêneros, raças e orientações sexuais vivendo com HIV e AIDS no Brasil.

Supostamente a título de informação, o Ministério escolheu ressaltar que 260 mil pessoas com HIV ainda não iniciaram o tratamento antirretroviral com o coquetel de medicamentos fornecidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS), quando poderia afirmar que, das 715 mil pessoas diagnosticadas com o vírus, 455 mil estão em tratamento com o coquetel. E que destas, 410 mil – 90% das pessoas em tratamento – são tão pontuais com suas doses diárias que já alcançaram a supressão viral, o que, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), torna a pessoa não transmissível. Para a OMS, estas 410 mil pessoas não transmitem o HIV porque alcançaram a supressão viral.

Dos serviços de saúde são cada vez mais frequentes as reclamações sobre a falta e/ou o fracionamento destes mesmos medicamentos antirretrovirais. O Brasil que adotou a estratégia “Testar e Tratar” é o mesmo que relega a assistência a segundo plano, que omite que em algumas cidades pode haver espera de até seis (6) meses do diagnóstico positivo à primeira consulta com um médico que possa orientar corretamente a pessoa com HIV para o início de seu tratamento.

O HIV e a AIDS são carregados de estigma. Por isso, pessoas com HIV sofrem diariamente com o preconceito e a discriminação, maior causa de abandono do tratamento. O acolhimento, que há tempos deixou de existir, e um serviço com profissionais de saúde capacitados e especializados garantiriam a adesão e a continuidade do tratamento. O governo sabe disso. É de responsabilidade executiva do Ministério da Saúde que a política de aids esteja implementada por todo o País, para que sejam evitadas e reduzidas a média de mais de 12 mil mortes anuais ocorridas nos últimos cinco anos.

Voltando ao lançamento da campanha realizado no templo de Carlinhos Brown, o artista elogiou a iniciativa do Ministério; o ministro da Saúde, em meio à apresentação de dados epidemiológicos, recomendou que as 260 mil pessoas com HIV que não iniciaram seus tratamentos procurassem por apoio espiritual. O cerimonial encerrou a solenidade. O vice-governador da Bahia, o prefeito de Salvador, os secretários estadual e municipal de saúde, e representantes do movimento social organizado, sem entender nada, enfeitaram a mesa.

Brasil, 22 de fevereiro de 2017.

Rede de Adolescentes e Jovens Vivendo com HIV/AIDS – RNAJVHA
Movimento Nacional das Cidadãs PositHIVas – MNCP
Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV e AIDS – RNP+

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