“Quando a ciência, a comunidade e a vontade política se unirem, poderemos acabar com a epidemia”, diz comissário de Nova York

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Roger Pebody, aidsmap.com, 17 de Fevereiro de 2017
Traduzido e adaptado por Jorge Beloqui (GIV, ABIA, RNP+)

A estratégia de Nova York para acabar com a epidemia de AIDS está firmemente enraizada na ciência, foi desenvolvida em conjunto com ativistas da comunidade e tem o apoio de líderes políticos de alto nível, afirmou Demetre Daskalakis durante a Conferência de 2017 sobre Retrovírus e Infecções Oportunistas (CROI).

“Quando você combina vontade política, intervenções biológicas e redução de danos, você pode chegar a zero”, disse ele.

O Dr. Daskalakis é uma figura de saúde pública incomum: um médico infectologista que realizou testes e vacinação em clubes sexuais e descreve-se como um “guerreiro da saúde queer”. Ele é vice-comissário para o controle de doenças no Departamento de Saúde da Cidade de Nova York e é o arquiteto da iniciativa da cidade para “acabar com a epidemia”.

Queer é uma palavra inglesa, usada por anglófonos há quase 400 anos. O significado literal seria “estranho, peculiar, excêntrico”. Desde o início do século XX, o termo passou a ser usado como ofensa, tanto para homossexuais, quanto para travestis, transexuais e todas as pessoas que desviavam da norma heterossexual. Queer era o termo para os “desviantes”. Não há em português um sinônimo claro. Mas na atualidade, não é necessariamente ofensivo, também designa uma categoria que compreende as culturas sexuais não-hegemônicas caracterizadas pela subversão ou rompimento com normas socialmente prescritas de comportamento sexual e/ou amoroso. Ela constitui um campo de pesquisa denominado Teoria queer.

A estratégia novaiorquina coloca especial ênfase na identificação de indivíduos não diagnosticados e na sua ligação aos cuidados de saúde; na retenção das pessoas na assistência para maximizar a supressão viral, e na facilitação do acesso à PrEP. O prefeito de Nova York, Bill de Blasio, e o governador do Estado, Andrew Cuomo, deram apoio político e orçamentário à iniciativa, facilitando a implementação por uma série de agências governamentais.

Os novos diagnósticos caíram de 3.527 em 2010 para 2.493 em 2015 e deverão cair para 1.350 em 2020. As estimativas para infecções incidentais estão seguindo uma trajetória semelhante.

Mas subsistem disparidades substanciais – assim como aquelas tipicamente observadas em relação à raça, idade e gênero. Mais de 80% dos novos diagnósticos ocorrem em indivíduos que vivem em áreas de alta pobreza.

“A equidade na saúde é a chave para acabar com a epidemia em nossa jurisdição”, disse Daskalakis. O acesso aos cuidados de saúde e ao apoio à habitação são partes importantes da estratégia.

E, embora tenha havido apenas modestas reduções nos diagnósticos feitos em homens que fazem sexo com homens (HSH), que respondem por quase 60% dos diagnósticos, houve êxito em outras populações. Os diagnósticos anuais em usuários de drogas injetáveis caíram de 343 há uma década para 76 em 2015. Em 2015 houve zero casos de transmissão do HIV de mãe para filho na cidade de Nova York.

Clínicas de Destino
A cascata de tratamento é forte – de todas as pessoas que vivem com HIV, 94% estão diagnosticadas, 86% retidas nos serviços, 82% receberam prescrição da terapia antirretroviral (TAR) e 74% têm carga viral indetectável.

Um foco do trabalho atual é transformar as clínicas de infecções sexualmente transmissíveis (IST) da cidade em “clínicas de destino” que promovem a saúde sexual de forma positiva. O desenvolvimento de tais serviços é muitas vezes negligenciado, mas Daskalakis disse que as clínicas de Nova York estão na linha de frente do HIV: 1 em 15 HSH diagnosticados com uma IST retal em uma clínica da cidade são diagnosticados com HIV dentro de um ano e 1 em 42 HSH que passam por uma clínica da cidade são diagnosticados com HIV dentro de um ano. Além disso, dois terços dos pacientes dizem que considerariam iniciar a profilaxia pré-exposição (PrEP). As clínicas acessam a um grupo demograficamente diverso de pacientes.

Os serviços atuais concentram-se no diagnóstico e tratamento de infecções, mas a aspiração é criar ambientes mais acolhedores que ofereçam uma gama mais vasta de serviços. As clínicas devem ser portas de entrada eficientes para o tratamento com profilaxia pós-exposição (PEP), PrEP e HIV. Atualmente é oferecida a iniciação no mesmo dia para todos estes serviços, com assistentes sociais e “navegadores de benefícios” para lidar com problemas de seguros de saúde e questões sociais subjacentes. A contracepção, vacinação contra o HPV, triagem do colo de útero e triagem anal também são oferecidas.

Considerando que a cascata de tratamento é geralmente pensada para se aplicar a pessoas que vivem com HIV e que alguns pesquisadores têm proposto uma cascata de prevenção em relação à PrEP, Daskalakis queria desenvolver um contínuo de cuidados que se aplicasse tanto para pessoas HIV-negativas como HIV-positivas.

Sua solução é um ciclo de prevenção e tratamento “sorologicamente neutral” que sugere que o início do processo – para todos – é o teste do HIV. As pessoas que vivem com HIV precisam acesso imediato à receita de TAR e devem ser retidas com cuidados de alta qualidade, o que entende-se como um processo contínuo. Isto contrasta com a típica cascata de tratamento, que trata de conseguir uma carga viral indetectável como um evento singular, que é o ponto final da cascata.

A outra metade do ciclo retrata o envolvimento com a prevenção para aqueles que testaram negativo para o HIV e estão em risco para o HIV. O indivíduo continua retido em serviços de saúde sexual de alta qualidade de forma continuada, o que facilita a conscientização e o uso da PrEP.

Uma abordagem “sorologicamente neutral” trata as pessoas que tomam tratamento com HIV e às pessoas que tomam PrEP da mesma maneira, nos mesmos serviços, reduzindo assim o estigma, disse Daskalakis, que terminou sua apresentação com alguns conselhos para os delegados. “Tratem do HIV como uma emergência, porque ele o é”, disse ele. “Sonhe grande e assuma riscos.”

“Tratem do HIV como uma emergência, porque ele o é”

 

Referência
Daskalakis DS. If You Can Make It There: Ending The HIV Epidemic In New York. Conference on Retroviruses and Opportunistic Infections (CROI 2017), Seattle, presentation 108, 2017.

 

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