Rico Vasconcelos/ UOL: O que fazer no surto de monkeypox para não estigmatizar ninguém

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Agora, no início de agosto, completam-se três meses que o mundo enfrenta um surto de monkeypox vírus. Com o crescimento exponencial do número de casos, já se somam mais de 33.000 confirmados em todo o globo, sendo, no mínimo, 2.415 deles em terras brasileiras.

Com o primeiro caso confirmado somente em 8 de junho, o Brasil largou atrasado nessa corrida. No entanto, nos dois meses que se passaram, acelerou, ultrapassou quase todos os outros países do planeta e rapidamente chegou à marca de 6º país com mais pessoas infectadas com o monkeypox.

Além dessa, outra marca importante, e que não tem nada para ser comemorada pelos brasileiros, é que uma das 10 mortes pela doença registradas até agora em todo o mundo foi em Minas Gerais.

Apesar do cenário epidêmico sombrio, infelizmente, a ficha ainda não caiu e a maior movimentação que percebi sobre o monkeypox na sociedade que me rodeia foi o debate sobre a estigmatização das populações mais afetadas.

Reproduzir o roteiro de discriminação encenado pela resposta à epidemia de HIV/aids nas décadas de 1980 e 1990 indiscutivelmente é uma péssima opção para o novo surto. O estigma do HIV sobre homens gays, mulheres trans, trabalhadores do sexo e usuários de drogas perdura por mais de 40 anos. Mas não podemos também parar nossa reação por aí. Precisamos avançar no enfrentamento do monkeypox.

Resolvi então listar alguns pontos sobre como enxergo essa questão da estigmatização para tentar ajudar o debate público a sair desse atoleiro e rumar para algo mais prático e eficiente.

1 – O receio de estigmatizar uma população não pode bloquear a comunicação. Evitar a comunicação direcionada para os grupos mais vulneráveis por medo de estigmatização é por si só uma forma de vulnerabilização desse grupo.

A identificação dos subgrupos mais vulneráveis em que se concentram os casos da doença é fundamental para se estabelecer com eles uma comunicação direcionada que leve informação e prevenção. Os dados epidemiológicos que evidenciam a concentração dos casos em determinados subgrupos devem ser divulgados juntamente com a explicação para tal distribuição, isenta de julgamentos, plausível e científica.

Por outro lado, o resto da população também precisa ser nutrida de informações sobre o surto, vias de transmissão e formas de prevenção para desfazer a impressão equivocada de que somente quem faz parte dos grupos de maior vulnerabilidade pode se infectar.

2 – Os meios de comunicação precisam se esforçar na divulgação de informações completas e compreensíveis. Em geral, os dados e conceitos envolvidos no entendimento de um fenômeno como uma epidemia são complexos. Simplificações dessas complexidades podem ser desastrosas.

Como exemplo disso, posso citar o longo pronunciamento sobre o surto de monkeypox feito pelo diretor-geral da OMS Tedros Adhanom, há cerca de duas semanas. Parte da mídia reduziu todo o discurso a “Homens gays devem reduzir o número de parceiros para controlar a epidemia”, para que coubesse na manchete chamativa.

Toda a preocupação com a estigmatização contida no discurso da OMS foi ignorada e o efeito da mensagem se inverteu, causando em quem lê a notícia a ideia de que homens gays são os culpados pela epidemia.

3 – É preciso estar atento para os desdobramentos que os posicionamentos podem causar, ainda que sejam corriqueiros e do cotidiano. Seja na forma de um discurso da OMS, seja em um conselho para um amigo, seja em uma brincadeira com um desconhecido, as palavras têm um poder enorme de sedimentar conceitos e preconceitos.

Todo o trabalho anti-estigmatização de dois meses de surto de monkeypox no Brasil vai pelo ralo quando, em um podcast de alcance nacional, o chefe de estado sugere, em tom de piada, que um homem que deseja se vacinar contra esse vírus é gay”

Em último lugar, convido a todos que reflitam sobre como é humano adoecer. Todas as pessoas do planeta por diversas vezes ao longo de suas vidas vão ficar doentes, sendo em muitas dessas vezes com uma doença infecciosa causada por um vírus ou bactéria, que pegaram inadvertidamente em uma exposição inocente, tal como bebendo água ou em um abraço.

Garanto que ninguém tem a intenção de adoecer. Mas todo mundo já sofreu com os sintomas de uma doença enquanto a infecção ainda não tinha melhorado.

Assim, em tudo o que for pensar, escrever ou falar sobre monkeypox, lembre-se que com um pouco de empatia é possível reduzir muito o estigma existente associado às doenças transmissíveis.

Dito tudo isso, proponho que agora nos dediquemos ao enfrentamento desse surto, que não parece dar sinais de que está próximo de acabar.

Fonte: Viva Bem (UOL) / Coluna Rico Vasconcelos

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