Sobre o risco de reintrodução da poliomielite no Brasil

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Por Gerson Salvador, médico assistente da Divisão de Clínica Médica do Hospital Universitário da USP

Quem nasceu até a década de 1980, como eu, certamente conheceu pessoas com poliomielite. Também conhecemos relatos de bebês, sobretudo das famílias mais pobres da zona rural, a morrerem de tétano neonatal, e de crianças mortas por sarampo, tudo isso presenciamos.

Lembro das festas nas campanhas de vacinação, todos ao posto, Zé Gotinha era um ícone, ele ia até no Show da Xuxa para promover as imunizações. “Tá na hora, tá na hora, na hora de vacinar!” E nós fomos vacinados, enquanto caminhávamos para a erradicação da poliomielite no País, com o último caso registrado em 1989.

O Brasil avançou no combate às doenças imunopreveníveis com um marco em 1973, quando o Plano Nacional de Imunizações (PNI) foi criado, e outro em 1988, quando a Constituição Federal em seu artigo 196 garantiu saúde como direito de todos e dever do Estado e Sistema Único de Saúde (SUS) foi criado.

Com a inclusão de imunizantes conforme novas tecnologias foram desenvolvidas e a extensão da atenção primária à saúde, com o Programa de Agentes Comunitários de Saúde e a estratégia de Saúde da Família, observamos as coberturas vacinais crescentes e a mortalidade infantil em queda contundente, sendo resultado não exclusivo, mas certamente impactado pela ampliação da vacinação.

É fato que tivemos desafios para a plena implementação do SUS, entre eles um problema crônico de subfinanciamento, e observamos disputas entre as áreas da saúde e da economia de distintos governos. A saber, com o Ministério da Saúde pedindo mais recursos, sempre insuficientes para construção de um sistema universal e integral, e esses sendo contingenciados pelas áreas econômicas. Apesar dessa contradição fundamental, podemos dizer que houve consenso sobre as imunizações, o que concorreu para que o nosso PNI fosse o maior programa público de imunizações do mundo em doses de vacinas e em pessoas alcançadas.

Na última década, entretanto, passamos a observar queda nos indicadores de cobertura vacinal, há pessoas que atribuem essa diminuição de adesão às imunizações unicamente à disseminação de fake news e à ampliação do chamado movimento antivacinas.

Entretanto, a queda das taxas de cobertura vacinal no País iniciou-se antes da ascensão destas teses no Brasil. O ano da inflexão de nossa curva de cobertura vacinal foi 2016. Destaque-se que neste ano Ricardo Barros, então ministro de Estado da Saúde, declarou que o tamanho do SUS precisaria ser revisto, inclusive destacando que não seria viável a garantia dos direitos constitucionais, como a saúde. Neste mesmo ano, o governo Temer aprovou junto ao parlamento a Emenda Constitucional 95, que instituiu o teto de gastos e modificou inclusive o financiamento da saúde, retirando recursos federais do já subfinanciado SUS em geral e da atenção primária à saúde em particular.

Nesse contexto de desorganização do SUS, observamos a reintrodução do sarampo no Brasil em 2018, as nossas coberturas vacinais descendo a ladeira, e o aumento da mortalidade infantil e outras tragédias, mesmo antes da pandemia.

Durante a pandemia de covid-19 pudemos ressignificar a relevância das vacinas, e prescindimos de medidas de distanciamento físico, retomamos atividades e observamos queda nos patamares de internações e mortes pelo coronavírus conforme a imunização avançou. Todavia, foi plantada uma semente de desconfiança em relação à vacinação, sobretudo de crianças, a partir de uma agenda extensa de desinformação e mentiras sobre a pretensa insegurança e ineficácia das vacinas, propagada por elevadas autoridades, inclusive pelo presidente Bolsonaro. Em contraposição, a coordenadora do PNI exonerada em julho de 2021, em plena campanha de imunização contra a covid-19, declarou à CPI da Pandemia que não tinha recursos para fazer anúncios publicitários em favor da imunização. Ou seja, o boicote às vacinas pareceu disposição deliberada.

Neste momento em que os números da pandemia estão em curva de melhora e poderíamos respirar aliviados (quem nos dera?!), vemos, entre outros agravos, a possibilidade da reintrodução da poliomielite no Brasil.

É necessária uma cobertura vacinal de 95% para garantir que os poliovírus não circulem na população, mas esse patamar não é alcançado desde 2016, chegando a 67% em 2021. É fato que estamos vulneráveis à reintrodução da poliomielite no Brasil, como observamos com perplexidade um caso recente desta afecção em Nova York.

Em um cenário de boicote institucional às vacinas, em que se soma o desmonte do SUS à hesitação vacinal por temor em relação à segurança das vacinas, precisamos ser promotores das imunizações onde estivermos, inclusive junto às nossas famílias e à comunidade universitária.

Em tempo, o Brasil está em campanha de multivacinação até 30 de setembro de 2022, vamos seguir o exemplo do velho Zé Gotinha, vamos cantar e bradar “tá na hora, tá na hora, na hora de vacinar!”.

Fonte: Jornal da USP 

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