O Palco como Cura e Confronto
Falar de HIV no teatro brasileiro é falar de uma dramaturgia de urgência. Desde os anos 80, artistas usaram as tábuas do palco para transformar o estigma em potência política. O teatro foi, e continua sendo, a ferramenta mais eficaz para furar a bolha do conservadorismo e humanizar o debate.
Aqui estão obras e movimentos fundamentais que usaram o teatro como arma de conscientização e combate ao preconceito:
- “Pela Noite” (Caio Fernando Abreu): Embora tenha nascido na literatura, suas adaptações teatrais são marcos. Caio trouxe a poética da agonia e da esperança, dando voz a uma geração que via seus amigos desaparecerem, mas que se recusava a morrer em silêncio.
- “Os Olhos dos Pobres” e a herança de Herbert Daniel: Ativista fundamental, Herbert Daniel usou a palavra para politizar o corpo com HIV. O teatro brasileiro bebeu dessa fonte para entender que o vírus não era apenas biológico, mas social e político.
- “Carcaça” e as novas narrativas: Mais recentemente, peças contemporâneas e coletivos (como o Loka de Efavirenz ou artistas como Ronaldo Serruya) trazem a perspectiva do corpo positivo hoje. Não se fala mais apenas de morte, mas de vida, desejo, sexualidade e da denúncia contra o desmonte das políticas de saúde pública.
Por que essa luta ainda é urgente?
A militância teatral no contexto do HIV é necessária porque o estigma mata tanto quanto o vírus. Quando uma peça brasileira coloca um corpo soropositivo no centro da cena, ela está:
- Denunciando o Sorofobia: Combatendo o preconceito estrutural que isola o indivíduo.
- Reivindicando o Direito ao Prazer: Mostrando que corpos com HIV amam, desejam e ocupam espaços.
- Exigindo Memória: Não deixando que a história daqueles que lutaram pelo SUS e pelo acesso universal aos retrovirais seja esquecida.
O teatro brasileiro “positivo” é um ato de insurreição. É tirar o vírus do armário da vergonha e colocá-lo sob o holofote da verdade política.
A Luta Continua
Neste 27 de março, celebramos o teatro que não se cala. Que o aplauso seja também um grito de resistência por um Brasil que trate a saúde como direito e a arte como o fôlego necessário para seguir em frente. O teatro é prova viva de que, mesmo diante da dor, a gente cria, a gente resiste e a gente brilha.
Coletivo Contágio: “Há Mais Revolta do que Vírus no meu Sangue”
Este é, talvez, o grupo mais emblemático da atualidade. Formado por artistas e ativistas que vivem com HIV, eles tratam a soropositividade não como um tema médico, mas como uma ferramenta de performance política.
- A Obra: Em espetáculos como “Há Mais Revolta do que Vírus no meu Sangue”, eles cruzam o HIV com racismo, questões de gênero e a solidão LGBTQIAPN+.
- O Diferencial: Eles não querem apenas “conscientizar” (o que pode ser didático e chato); eles querem provocar. Eles usam a memória das perdas do passado para exigir um futuro onde o corpo positivo não seja um corpo vigiado.
Coletiva Rainha Kong: “Feitiço de Soma”
Com uma estética que mistura palestra, ritual e feitiço, a Rainha Kong leva para o palco a trajetória da epidemia no Brasil com um olhar afiado para a interseccionalidade.
- A Militância: O trabalho deles foca em como o estigma foi construído historicamente para punir corpos dissidentes (pretos, trans, gays). Peças como “Feitiço de Soma” subvertem a ideia do “paciente” e colocam o artista como detentor de um conhecimento mágico e científico sobre si mesmo.
Ronaldo Serruya e “A Doença do Outro”
Ronaldo Serruya é uma das vozes mais potentes da dramaturgia “positiva” brasileira. Seu trabalho é uma investigação profunda sobre a estética do vírus.
- O Ativismo: Em seu monólogo “A Doença do Outro”, ele questiona por que a sociedade ainda olha para o HIV como algo que pertence apenas ao “outro”, ao “promíscuo”. Ele usa o palco para desmantelar a vergonha e reivindicar o direito ao desejo.
Coletiva Loka de Efavirenz
Mais do que um grupo de teatro, é um movimento de artistas pesquisadores (como a antropóloga Pisci Bruja) que colaboram em diversas montagens.
- O Nome: O nome faz referência a um dos efeitos colaterais comuns de um antigo medicamento (Efavirenz), que causava sonhos vívidos e alucinações. Eles pegam esse “efeito colateral” e o transformam em potência criativa, criando um teatro que é onírico, político e profundamente humano.
Autor – João Cavalcante Rezende.
