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07/08/2016

ECOS de Durban: mulheres jovens tratadas precocemente seguem HIV-negativas

Um grupo de jovens mulheres sul-africanas, diagnosticadas com a infecção pelo HIV e tratadas muito precocemente com terapia antirretroviral (TAR) preservaram suas contagens de CD4 e a função das células que o HIV normalmente interrompe. A maioria delas nunca soroconverteu, permanecendo negativas para o HIV, apesar de terem evidência de baixos níveis de infecção pelo vírus nas células.

Por Gus Cairns, 18 de julho de 2016 (*)

Planeja-se acompanhar estas jovens mulheres por dois a três anos. Nesse momento será decidido se oferecem-lhes a opção de se submeter a uma Interrupção Analítica de Tratamento (IAT) – em outras palavras, suspender a TAR para ver se elas podem permanecer indetectáveis sem medicamentos.

O estudo foi apresentado no Simpósio Rumo à Cura 2016, uma reunião de dois dias sobre as últimas notícias de ciência pura e social no mundo da investigação da cura para o HIV, que precedeu a 21a Conferência Internacional de Aids (AIDS2016), ocorrida em meados de julho, em Durban, África do Sul.

O estudo FRESH
Thumbi Ndung’u (na foto), da Universidade de KwaZulu-Natal, apresentou no Simpósio os últimos dados do estudo FRESH, que entre outras coisas, é um estudo criado para mostrar que é possível promover a cura do HIV entre jovens vulneráveis em ambientes de baixa renda, e olhar para opções que possam realmente ser aplicadas nestes contextos.

“Otimizar o efeito da TAR pode ser mais viável do que outras estratégias de cura no ambiente africano, pelo menos no curto prazo”, comentou Ndung’u.

O estudo FRESH recrutou 300 mulheres jovens com idades entre 18 e 23 anos, sorologicamente negativas para o vírus, mas com alto risco de infecção pelo HIV. Seu principal objetivo é avaliar o efeito de fornecer a TAR durante a infecção ‘hiperaguda’ pelo HIV – isto é, no estágio detectável mais precoce. Este momento seria no prazo máximo de três semanas da infecção e geralmente dentro de dez a 15 dias, mesmo antes de alcançar o pico de carga viral de HIV e bem antes da geração de anticorpos para o HIV.

Para detectar a infecção pelo HIV tão precocemente, as mulheres jovens fizeram testes para detectar o HIV pelo menos duas vezes por semana – um compromisso considerável.

Resultados
Apesar de ir às clínicas para testar muitas vezes e ter acesso a preservativos e aconselhamento para prevenção, 42 das jovens foram infectadas com o HIV. Isto representa uma incidência anual de 8,5%, similar à incidência de base. Esta taxa de incidência, se sustentada, significaria que mais de 50% destas mulheres jovens teriam HIV no prazo de oito anos.

Das 42 mulheres, 28 receberam a TAR precocemente, 24 delas no prazo de 15 dias da infecção. Das 14 que optaram por não tomar TAR imediatamente, 11 tiveram a infecção detectada no prazo de 15 dias da exposição.

Entre as mulheres não tratadas, o pico da carga viral foi na casa das dezenas de milhões de cópias/ml dez dias depois do diagnóstico. Esta carga viral depois declinou para um patamar constante com uma média de 30.000 cópias/ml entre três e quatro semanas após o diagnóstico. Suas contagens de CD4, com média de 800 células/mm3 antes da infecção, caíram para 250 células durante o pico da viremia, mas depois se recuperaram, embora não completamente, para cerca de 470 células/mm3 no dia 30.

As mulheres tratadas imediatamente só desenvolveram uma carga viral de pico de cerca de 40.000 cópias/ml e tinham carga viral abaixo das 50 cópias/ml no dia 30 após o diagnóstico. Suas contagens de CD4 oscilaram ligeiramente durante o pico da viremia, mas estavam em níveis pré-infecção estáveis no dia 30.

Apenas três das 22 mulheres tratadas com a TAR e com dados completos desenvolveram anticorpos anti-HIV e, assim, testaram “HIV-positivo”. Não houve relação entre a carga viral de pico e se as mulherem desenvolveram anticorpos ou não, mas houve uma ligeira relação entre consultas médicas não atendidas e soropositividade para o HIV.

Algumas das mulheres tratadas não desenvolveram resposta imunitária alguma ao HIV – não apenas uma ausência de anticorpos, mas também uma falta de respostas de células CD8. Daquelas que produziram esta resposta, embora tivessem menos células reativas ao HIV, desenvolveram uma resposta anti-HIV muito mais forte. Em contraste, em mulheres não tratadas, as células CD8 específicas para o HIV exibiram uma resposta muito mais fraca para o HIV (apenas 20% das que segregam interferon-gamma antiviral natural) do que para outros vírus (60% para CMV, 100% para gripe).

Discussão
Este resultado é concordante com os outros apresentados no Simpósio, o que sugere que o HIV faz algo específico nas células CD8 que leva-as a se tornarem lentas e não reativas. Provavelmente faz isso induzindo a que as células “se regulem negativamente” ou retirem seus receptores para outros transmissores do sistema imunológico para si mesmas, tais como o receptor CD127, cuja presença indica a longevidade das células.

Isto pode modificar a “hipótese da inflamação”, ou seja, que o HIV causa dano, fazendo com que o sistema imunológico fique exaurido. Em vez disso, especificamente poderia desligar partes do mesmo. As células CD8 específicas para o HIV em mulheres tratadas tinham moléculas CD127 completamente reguladas e segregavam interferon-gamma dez vezes mais.

Implicações e próximos passos
Embora estes resultados sejam intrigantes, a pergunta é: o que segue depois para as mulheres tratadas? Será que seus níveis aparentemente muito baixos de vírus se traduzem em uma capacidade de contê-lo se a TAR for suspensa? Este é um debate crítico na pesquisa da cura. Alguns cientistas dizem que apenas a interrupção do tratamento nos dirá se a TAR precoce ou outras intervenções podem levar ao controle sem TAR. Outros querem mais experiências com modelos animais e melhores indicadores de controle antes de considerar a interrupção do tratamento para os pacientes. Ndung’u disse que a opinião atual da comissão de ética do ensaio foi a de que as mulheres devem estar em TAR por pelo menos 2 a 3 anos antes de considerar a interrupção do tratamento.

Questões relacionadas com isto incluem:

  1. educar as mulheres que testam HIV-negativo para que compreendam que provavelmente ainda têm a infecção; e, também,
  2. decidir se a PrEP (profilaxia pré-exposição) deve ser parte do que deve ser oferecido a mulheres com tão alta incidência.

Em uma reunião paralela, a Organização Mundial de Saúde disse que a oferta de PrEP deve ser uma prioridade em populações em que a taxa de novas infecções pelo HIV é de 3% ao ano ou mais. Ndung’u disse a aidsmap.com que eles estavam esperando que o governo sul-africano divulgasse suas diretrizes de PrEP, provavelmente neste ano. Porém, salientou que seria provavelmente oferecida, mesmo que isso significasse uma alteração considerável da incidência e, portanto, do poder do ensaio.

Referência
Ndung’u T Addressing key gaps in cure research through identification and treatment of hyperacute HIV infection in a resource limited setting. Towards a Cure 2016 Symposium, 21st International AIDS Conference, Durban, 2016. See http://www.iasociety.org/Web/WebContent/File/HIV_Cure_2016_Symposium_Programme_July.pdf for programme.

(*) Traduzido e adaptado por J. Beloqui (GIV, ABIA, RNP+)

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